Clarice Falcão – Monomania (2013)

Clarice-Falcão-Monomania

Origem: Brasil
Gêneros: Indie Folk, Indie Pop
Gravadora: Independente

Se você acompanha o canal Porta dos fundos, você já deve conhecer a pernambucana Clarice Falcão, de 23 anos, cantora e compositora de músicas “malucas, porém fofas pela inocência imposta na interpretação”. Monomania é seu disco de estréia e de cara já pegamos um disco com uma arte feia, preguiçosa e sem inspiração. Não costumo criticar arte de disco, mas Monomania é um dos trabalhos mais feios que já vi como produto musical. Apesar do meu desgosto pela arte do álbum, o objetivo de uma análise crítica sobre um disco não é sobre sua arte, e sim sobre seu conteúdo: as músicas e as letras (caso o disco tenha letras, como é o caso deste disco). O que se pode falar, resumidamente, sobre a estréia de Clarice? Ruim e fraca.

Na parte instrumental das 14 faixas de Monomania (sendo a última uma versão em Inglês de “Fred Astaire”) não tem nada de ruim, mas também nada de bom. Não tem destaque positivo ou negativo nesta parte, pois é tudo certinho. Tudo. O destaque fica na voz de Clarice, que é aqui onde você vai gostar do trabalho dela ou não. Ela não canta mal, e até que possui uma voz bonita. O problema é o que ela canta, a personalidade que ela incorpora e a interpretação que ela usa ao decorrer do álbum que dura por volta de 34 minutos. Ela tenta soar doida, mas de uma forma boba, inocente, fofa. Clarice tenta soar tão fofa que soa repugnante.

Porém, o maior defeito deste disco são as letras. As letras são pavorosas. Clarice, às vezes, consegue escrever versos interessantes (são poucos) e dou crédito a ela por usar boas rimas e métricas em seus versos, entretanto, outros versos fazem sentido nenhum. Veja este verso da faixa “De Todos os Loucos do Mundo” e perceba a falta de sentido.

“Você esconde a mão, diz que é Napoleão”

O que isso quer dizer com isso? Você está chamando o cara que você gosta é gay? Está dizendo que o cara louco que você diz entre todos os outros loucos mundo foi este que você quis é gay? Ou essa pessoa é uma mulher? E pra piorar ainda mais a  situação do humano que a Clarice diz gostar e a minha confusão, Clarice complementa com o verso:

“Boa parte de mim, acredita que sim”

Depois dessa, é difícil não achar, pois a própria mulher acredita que você é gay. Então Clarice gosta de um homem gay? Fica a dúvida.

Mas a pior letra fica por conta de “A Gente Voltou”. É uma inocência tão burra e nojenta que ela põe na letra desta faixa que simplesmente não consigo levar a sério como compositora, ou levar na brincadeira como compositora. É estúpida a letra desta canção, parecendo que foi composta por uma menina com 13 anos tentando parecer poética. Até o humor que ela passa nas suas músicas parece ter sido feito por uma menina com 13 anos que pensa que é mais engraçada e inteligente que Zorra Total e A Praça é Nossa.

De todos os artistas da atualidade, gostar de Clarice Falcão não é um crime, se compararmos com outras porcarias nacionais que estão na mídia – como o ridículo Naldo -, porém, em Monomania, Clarice Falcão não demonstra conteúdo relevante em suas canções amorosas. Suas músicas não são bonitas ou inteligentes. Não são nem sinceras. É apenas uma tentativa de que consiga um público que goste de suas músicas fofas com uma poesia ginasial, e o alvo desse público vai deste o ouvinte de música pop ou aos fãs mais chatos de Los Hermanos. Se o som Indie Pop com pegada Folk – influenciado por grupos como She & Him – faz sua cabeça, vá firme, pois em Monomania vai ter muito para você ouvir. Entretanto, se você quer algo com um pouco mais de profundidade e até mesmo um tom maior de seriedade e sinceridade do que Clarice Falcão oferece, não é o trabalho recomendado para ouvir.

Sem título-8

Anúncios

Torres – Torres (2013)

homepage_large.d943ebc8

Origem: Estados Unidos
Genêros: Indie Rock, Dream Pop, Folk Rock
Gravadora:
 Independente

Cá estamos, após um belo ano para a música, tudo começa novamente. O ciclo tem seu recomeço, nada para e 2013 promete. Estou um tanto atrasado pois estava enrolado com a lista de melhores discos de 2012 que acabei perdendo duas vezes graças a problemas com meu computador, e logo após isso, alguns problemas pessoais tiraram quase todo o tempo que eu tinha pra escrever. Sem mais delongas, vamos direto ao que interessa: Minha opinião sobre este belo trabalho, primeiro registro que ouvi neste 2013

Torres é uma garota de 22 anos vinda de Nashville, Tennessee. Na verdade, ela se chama Mackenzie Scott e seu projeto começou a ganhar asas recentemente. Não há muito a se dizer por trás desse debut auto-intitulado, senão que, como de praxe, um primeiro disco tem a vantagem de não carregar expectativas, podendo cativar fãs com maior facilidade. Em contrapartida, é quase sempre o primeiro disco que caracteriza sua fanbase ou o caminho que sua carreira vai seguir. Mackenzie não parece estar se importando muito com tudo isso, quer dizer, não a ponto de deixar que todo esse bolo de fatos e detalhes descaracterize a sua arte. Ao menos visivelmente, não.

O que chama a atenção nesse disco é a voz de Scott. Suas linhas vocais são marcantes por si só, sem necessariamente possuir um diferencial. Ela não soa diferente e nem pode ser considerada uma ótima cantora, mas sua voz – meio fraca, meio trêmula (?) – é um dos principais charmes deste trabalho. Do outro lado, fazendo isso funcionar corretamente, temos as letras. Cobertas de metáforas e comparações, são quase retratos, talvez pelo fato de que são escritas – a maioria delas – em  primeira pessoa. É como se, ao prestar atenção, você mentalizasse uma pequena história em sua cabeça, mas sem saber exatamente o que aquilo significa, embora seja algo “concreto”. Uma aura pesada contorna tudo isso, criando um ambiente melancólico que começa a ser construído em “Mother Earth, Father God” e tem seu final em “Waterfall”

Os arranjos aqui são demasiadamente simples, isso quando as músicas não são acompanhadas somente pela guitarra. Isso não faz desse disco pior, uma vez que eles se encaixam perfeitamente no clima do mesmo. Torres construiu isso minuciosamente e o resultado agradou, mostrou o que faz um disco não ser uma simples compilação. Isso se baseia saber como encaixar cada faixa em seu lugar e saber qual é seu objetivo: Fazer tudo na mesma linha ou extrapolar os limites de gênero, padrões, formatos e etc. Embora o primeiro seja muito mais fácil que o segundo, é algo que está em falta atualmente. Isso é, se tratando de discos com  bons resultados finais, isso está em falta. Essa combinação monta uma atmosfera muito agradável, sobrepondo as letras  com as melodias suaves e lentas. Isso se nota na sequência de faixas 3-8; as mais densas e que são capazes de despertar o gosto do ouvinte pelo full-lenght. De um ponto de vista sensorial, é como se você estivesse sendo hipnotizado e se transportasse para trechos de filmes em lugares imaginários que fossem capazes de ilustrar as belas e  – de certa forma – tristes canções presentes aqui. O uso eventual de eletrônicos e do baixo, principalmente em “Chains”, música de número 6, fazem a diferença e são responsáveis pela manutenção da obra ao longo de seus cinquenta e tantos minutos.

Esse disco realmente me pegou de jeito e se tivesse sido lançado ano passado, estaria figurando entre os melhores do ano. Sua qualidade é incomparável e embora não possua um diferencial para ser considerado clássico, não possui grandes problemas. Ao menos eu, não notei nenhum ponto negativo nesse disco ao longo das 7 audições até agora. Mackenzie não saiu da zona de conforto, poderia ter arriscado mais, mesmo assim cumpre de maneira espetacular seu papel para um primeiro disco. Quem sabe um dia ainda possamos dizer: Joni Mitchell – Kate Bush – PJ Harvey – Cat Power – Feist – Torres. Veremos.

Sem título-18

 

Blink-182 – Dogs Eating Dogs (2012)

Dogs Eating Dogs

Origem: Estados Unidos
Gêneros: Pop-Punk
Gravadora: Independente

O blink-182, uma das principais, senão a principal precursora do pop-punk no mundo voltou com todo gás após lançar o álbum Neighborhoods, em 2011, o qual você pode ler a resenha aqui, porém desta vez com um EP de natal (que não tem muito a ver com natal) independente, com a produção de Mark Hoppus, Tom DeLonge e Travis Barker.

O EP começa com a canção “When I Was Young”, que é com certeza a melhor canção do álbum. Ela começa com uma falsa impressão de calmaria na sua introdução, porém logo podemos perceber a velocidade e a leve agressividade na música, que conta com um dueto de Mark e Tom, que por sinal, essa é uma música que temos os melhores vocais de Tom DeLonge em algum tempo. É uma música fácil de digerir e ela consegue ficar na sua cabeça. Temos nela uma leve lembrança de Angels & Airwaves, banda liderada por Tom. Logo após temos a música mais agressiva e raivosa do EP, coisa que faltou no Neighborhoods. “Dogs Eating Dogs”, música que nomeia o EP, lembra bastante o som do +44, projeto tocado por Mark e Travis. É um boa música, mas não tem nada demais nela que a faça se destacar.

Em seguida, temos “Disaster”, música mais lenta e com uma leve, levíssima pegada psicodélica, e nele percebe-se também bastante  influência do estilo de Tom no Angels & Airwaves. A letra é bastante boba e melosa, mas dá pra se entusiasmar com ela, mas assim como Dogs Eating Dogs, não tem nada demais. “Boxing Day” é uma música com uma pegada mais de balada, com um leve ar de folk devido a base inteira da música ser feita com violões de Tom e Mark. A música tinha tudo para ser excelente, mas a voz de Tom não combinou com o estilo e o som, seria melhor se o Mark assumisse a parte vocal totalmente nesta canção.

“Pretty Little Girl” finaliza o EP pra alguns muito bem, e para outros muito mal. É a canção mais polêmica do álbum, devido a influência de Travis Barker, que está tentando trazer um pouco de rap para o Blink, e com isso ele levou com ele o rapper Yelawolf, a qual tem um projeto em particular para fazer uma participação de quase 40 segundos na música. São 38 segundo de uma coisa totalmente indiferente, que nem fede nem cheira, não muda nada, porém quem não gosta de rap com certeza não gostará disso. O reto da música traz um sensação de new-wave na letra, com o baixo e a bateria trabalhando forte na música, acompanhando o bom vocal de Tom DeLonge.

Parafraseando Scott Heisel da revista americana “Alternative Press”, tomando em consideração o quanto era impossível que o blink-182 se juntasse novamente algum dia, o fato de que a banda superou suas diferenças e lançaram um álbum completo e um EP já é espetacular. O EP teve diversas falhas, mas não é algo ruim, é algo regular, e se em pouco tempo e pela primeira vez gravando “sozinhos”, ele fizeram algo regular/bom, quando eles se trancarem no estúdio para gravar um novo CD com tempo e com vontade, o trio californiano pode fazer algo espetacular.

Sem título-12

Lay It On The Line – A Lesson In Personal Finance (2012)

cover

Origem: Inglaterra
Gêneros: Pós-Hardcore, Powerviolence
Gravadora: Independente

Lay It On The Line é uma banda do Sul de Londres formada em Janeiro de 2012 e o EP de estréia da banda, A Lesson In Personal Finance, é uma estréia poderosa. Não estou mencionando a demo que a banda gravou em Janeiro do mesmo ano, Midnight In The Bellagio, como a estréia por ser uma demo e porque os próprios membros da banda recomendam você ouvir este EP no qual eu estou resenhando lançado em Julho (mas eu particularmente recomendo a demo). O que o grupo tem a oferecer para o mundo com sua música? Muita, mas muita agressividade envolvido por boas (e criativas) composições. O grupo pretende lançar somente trabalhos conceituais envolvendo histórias reais, como é o caso da demo e deste EP.

O conceito do EP é sobre um professor da escola de dois integrantes da banda na década de 1990 que foi morto por um garoto de programa (sim, garoto) que não recebeu o dinheiro que deveria receber pelo programa e decidiu assaltá-lo, e em um acidente matou o professor, que tinha acabado de se aposentar. Se o conceito já é algo bastante impactante e forte, a música do grupo segue no mesmo nível. Os vocais de Mike Scott, uma versão mais grave dos vocais neandertais de John Dyer Baizley do Baroness, são uma das melhores partes do som da banda. Mas ele está acompanhado por uma banda competente e pesada, em uma sujeira orgânica que vai deixar uma forte impressão no ouvinte.

As músicas do grupo são curtas – a mais longa chega a ter 2:39 de duração -, mas a banda compensa a curta duração em uma enxurrada sonora de riffs, que nem sempre são os mais interessantes, mas são decente, e em alguns casos, a faixa fica incompleta ou subdesenvolvida, como é o caso de “Pay Your Rent, Boy”, que não chega a marca de 1 minuto de duração. As letras do grupo, diretas e agressivas, ajudam na proposta do grupo, que tem influências desde clássicos do Metal como Dio e Iron Maiden a cena Grindcore. Não é apenas um trabalho recomendado, mas sim uma banda recomendada. Não é das mais fáceis de digerir, entretanto, quando digerida, é recompensadora. Você pode conferir todos os lançamentos e os próximos lançamentos da banda clicando aqui.

Sem título-19

Esteban – ¡Adiós, Esteban! (2012)

Origem: Brasil
Gêneros: Indie Rock, Pop Rock, Rock Alternativo
Gravadora: Independente

Não é preciso introduzir o ex-baixista da Fresno, o gáucho Rodrigo Tavares, ou como é chamado em sua carreira solo, Esteban. Por quê? Simples! Leia esse texto que escrevi mês passado, onde falo bastante sobre o homem em seu primeiro single, “Canal 12”, uma ótima faixa de abertura para ¡Adiós, Esteban!, seu disco de estréia em território solo. Mas a dúvida é: o disco em si é tão bom como é a música “Canal 12”? Eu acredito que tenho a resposta para esta singela e simplória pergunta. E a resposta que eu conclui foi um triste “não”. Infelizmente não mantém esta consistência. O álbum de estréia de Tavares (que toca quase todos os instrumentos, além de escrever as letras e cantar) foi montado em volta de boas faixas, outras medianas, outras esquecíveis e fracas, e outras tão horríveis que faz o autor deste texto ter pesadelos.

A faixa de abertura é “Canal 12”, que você provavelmente já deve saber minha opinião. Junto dela, as melhores faixas de ¡Adiós, Esteban! são as contagiantes “Pianinho”, a canção que praticamente iniciou Esteban chamada “Sophia”, “Sinto Muito Blues”, que tem participação de Humberto Gessinger, do Engenheiros do Hawaii, e a depressiva “Muda”. Estas canções em sua parte destacam o disco e praticamente fariam deste trabalho um bom EP, caso fosse um EP composto somente por estas músicas, o que não ocorre. As medianas “Visita”, primeira música que Tavares fez com o nome Esteban, como “resposta” a música que seu ídolo, Humberto, fez um tempo atrás, e a lentinha “Segunda Feira”, apesar de serem boas músicas e os fãs adorarem, não chega aos pés das cinco citadas anteriormente. E o encerramento do disco, “¡Adiós, Sophia!”, se mantém no nível das duas citadas, mas é um fim divertido ao disco que por boa parte do seu decorrer é lento e melodramático.

Já “(Eu Sei) Você Esqueceu” e “Tudo pra Você” são os tipos de música que você torce o nariz enquanto ouve elas. Elas não tem nada de especial e elas estão juntas e próximas da música final, o que faz ter vontade de pular as canções, um crime para quem que gosta de ouvir um trabalho completo do artista, qualquer que seja. Mas não chegamos perto das duas tragédias deste disco, que são “Muito Além do Sofá” e “Sua Canção”. Assim como as duas anteriores citadas, estas duas são uma atrás da outra. Elas são horríveis. São óbvias em suas rimas. A melodia em ambas são incrivelmente irritantes, principalmente em “Sua Canção” por ser extremamente genérica. Estas duas músicas são tão ruins que fazem de “Segunda Feira” piorar, fazendo com que ela parece uma faixa ruim, algo que ela não é. É o que eu chamo de “mata-disco”. Essas duas canções conseguiram esta proeza e faz com que ouvinte queira que o álbum termine suas atividades logo. Elas certamente poderiam ficar de fora deste disco com uma tremenda facilidade.

Por mais que eu goste de Rodrigo Tavares e de Esteban, é inegável que ¡Adiós, Esteban! é abaixo da média e do esperado. Os fãs do gaúcho podem ficar felizes pelas músicas muito bem produzidas, bem cantadas, cheias de emoções e com instrumentos incomuns para “roqueiros fãs de Fresno”, ou um ouvinte comum de Rock, ou podem preferir as versões antigas, feitas anos atrás, mas com uma tracklist inconsistente e decepcionante que este disco possui, ele cai em um nível medíocre (eu odeio usar esta palavra, mas ela é efetiva), além de algumas letras que são vergonhosas, seja pela temática, pelas rimas óbvias… ¡Adiós, Esteban! poderia ser um trabalho muito melhor do que ele é. Mas isso impede de ser recomendado? Claro que não! Eu recomendo a todos. Sim, a todos. Seu tio, avô, pai, amigo metaleiro, primo funkeiro… ¡Adiós, Esteban! é um disco por boa parte agradável e bonito, e mesmo não tendo sendo tão bom quanto devia, vale (muito) a pena conferir a estréia do ex-integrante da Fresno. E você pode baixar no próprio site do cara (clicando aqui) e ver mais informações sobre possíveis shows que o mesmo possa fazer. Eu já assisti a um show do senhor Rodrigo Tavares, e, honestamente, eu recomendo, tchê!

Track 1: “Canal 12”, por Esteban

Rodrigo Tavares até o início do ano era o baixista e um dos principais compositores da Fresno. Tavares um dia acordou e decidiu sair da banda para focar em sua carreira solo que já existia a três anos, mas não teve o pontapé inicial, o disco de debut. Lançou várias músicas para os fãs ouvirem, mas nenhum disco (ainda). Acredita-se que esse ano teremos o tão esperado ¡Adios Esteban!, nome de seu primeiro disco em carreira solo. E a sonoridade é surpreendente para quem nunca tinha ouvido Tavares como Esteban. O homem todo tatuado, vindo de uma banda taxada de emo, mostra uma grande influência do Rock Argentino, do Rock Gaúcho e até da Música Nativista Gaúcha, que unidas formam um clima agradável e Pop (para nós, Rock para os hermanos). É o tipo de som que agrada a (quase) todos. Apenas extremistas a determinado gênero deverão odiar esse projeto. E um bom início para ouvir Esteban é com “Canal 12”.

“Canal 12” é o tipo de música que pode ser considerada comercial e ainda sim soar verdadeira, interessante e bem emocional. A música tem um alto poder de identificação com quem está ouvindo. Não no sentido de “o autor fez para o ouvinte”. Um (bom) compositor jamais faria algo para agradar alguém além de si mesmo. O poder de identificação vem da simplicidade da música, da maneira como é fácil de absorvê-la, da maneira como Tavares se impõe no vocal, do instrumental, e, principalmente, da letra (falarei posteriormente sobre esta seção). Você se identifica com o que o compositor está passando com a música, o que é um grande fator para criar uma relação com o público, seus fãs. Outro ponto positivo da música é o uso de instrumentos que os fãs de Fresno (provavelmente) nunca deram atenção ou nunca se interessaram, como o acordeão. Tavares coloca na cabeça de seus fãs instrumentos não familiarizados muito bem, fazendo com que os gostos de seus fãs sejam expandidos, seja intencional ou não.

E que tal os vocais de Tavares? Tavares se impõe a música de uma ótima forma, soando bem honesta e sincera, deixando seus sentimentos irem de acordo com a música, que por si só é triste. Tavares não atinge notas altas, seja por vontade própria ou porque não consegue (mais provável a segunda), mas isso não faz da música pior. A voz do ex-Fresno é muito interessante e combina com a atmosfera da música. Ele soa melhor que muitos vocalistas que atingem notas altas (ou costumavam a atingir), como James LaBrie, do Dream Theater, e Geddy Lee, do Rush (mas ambos continuam fodas). Tavares deu a interpretação bela e correta para o que a letra e música pedia.

E a letra provavelmente é o ponto mais fraco da letra. Não é porque é ruim ou falta detalhes, como faltou em “Infinito”, da Fresno. Na verdade, “Canal 12” tem uma boa letra com boas metáforas e ideias. Ela tem um grande potencial de identificação e é fácil de compreende-la. Então qual é o problema que faz a letra ser o ponto fraco? A poesia, mais especificamente na rima e na métrica (algo praticamente inútil nos tempos modernos, mas ainda assim é um motivo para reclamar aqueles que são mais chatos). As rimas são mínimas e a métrica é praticamente inexistente. Mas esses pontos perto do poder que a música oferece, o feeling da música de Esteban passa, supera toda essa quase falta de rimas e métricas, mostrando aos chatos que nem sempre precisa seguir algo padronizado. Mas ainda me deixa uma pergunta no ar: “Canal 12” tem uma letra simples, abordando o tema de “seguir em frente, mudar sua vida, esquecer do passado”, e da maneira como Tavares passa, é quase certo de que é sobre um romance fracassado. É um tema simples que poderia ter um pouco mais de esforço para as rimas, mas que no fim das contas, ainda continua sendo uma boa letra para uma ótima música. Pelo menos não estamos tendo temas estúpidos como muitos artistas do Sertanejo Universitário andam usando ultimamente (e que conseguem ser mais “Rock & Roll” que muitas bandas brasileiras que se proclamam “Rock & Roll”).

“Canal 12” é uma bela música com um alto poder de identificação ao ouvinte e fácil de agradar aos mais variados gostos musicais, possuindo uma produção muito boa e satisfatória. Uma letra que mesmo sem muitas rimas mostra o qual poderosa e emocional pode ser, sem falar no belo solo de acordeão, um instrumento atípico para os fãs de Rodrigo Tavares, que boa parte são jovens sem muito conhecimento musical (ex: se aquele garoto ouve tal tipo de música, será tachado somente como “o garoto que ouve tal tipo de música”) ou não tem interesse em buscar por novas ideias musicais. O único grande problema de “Canal 12” (se nós ignorarmos os problemas poéticos0) é que a música já existe a mais de dois anos e já foi lançada em uma versão diferente (sem acordeão e com outras alterações), não tendo muita inovação com o material cedido. No fim, ocorreu poucas surpresas para quem já conhecia Esteban, mas é inegável que essa música é muito boa e merece muito, mas muito destaque.

Track 1: “Infinito”, por Fresno

Olá, caros leitores do blog Images & Words. Você deve ter percebido na falta de textos nos últimos tempos, infelizmente. Nós, escritores do blog, não estamos dando conta de fazer resenhas constantemente. Por isso, para deixar as coisas mais fáceis para todos e para que vocês possam ter algo para ler, haverá uma nova coluna. A coluna será chamada de Track 1, onde o escritor irá escrever sobre uma música em especial. Os requisitos mínimos para um texto Track 1 é que a música seja mais atual possível, que seja um single e que de preferência tenha um videoclipe ou um vídeo oficial lançado pelo artista/banda. Caso queira sugerir uma canção para o Track 1, vá a aba “Sugestões” ou clique aqui e faça sua sugestão. Com isso dito, vamos começar o novo quadro com Fresno! Pode não ser uma escolha que agrade a todos, mas quem escreve é quem decide, então paciência.

Após o lançamento do EP Cemitério das Boas Intenções, que foi analisado no ano passado aqui no blog e você pode conferir clicando aqui, a banda gaúcha Fresno teve um momento difícil com a saída do baixista Rodrigo Tavares, que decidiu seguir outros projetos, como sua carreira solo. Mas a banda composta atualmente por Lucas Silveira (vocalista e guitarrista secundári0), Gustavo Mantovani, ou melhor conhecido como Vavo (guitarrista principal), Bell Ruschell (baterista) e pelo novato Mário Camelo (tecladista) seguiram em frente e se tornaram a primeira banda/artista no mundo a lançar um videoclipe com imagens do espaço. E sinceramente, é um videoclipe muito bonito de assistir e eu recomendo que você assista, entretanto não deixa de ser confuso em alguns momentos graças a edição. As crianças são os caras da Fresno no passado ou são pessoas totalmente diferentes? Se são do passado, a viagem do balão conseguiu voltar ao tempo e trocar de lugar com o outro balão? Se não é do passado, como é que os balões trocaram, sendo que os caras da Fresno foram informados? Será Bell Ruschell o novo Arnold Schwarzenegger no quesito atuação? Essas perguntas e outras provavelmente nunca serão respondidas. Mas ao invés de ficar com dúvidas nesse videoclipe, que tal focarmos na música?

Algumas pessoas dizem que essa música soa algo vindo do Muse. Eu não creio que “Infinito” faria a cara do Muse. A banda inglesa certamente gosta de espaço, assim como Lucas, e a Fresno tem uma grande influência da banda de Matthew Bellamy e com a entrada de Mário isso se tornou ainda mais visível (e melhor). Mas eu ainda não consigo ver uma conexão que faça você dizer “Fresno está com som à la Muse”. O que eu posso dizer é que existe uma forte influência na musicalidade e nos timbres da Fresno, principalmente por causa dos teclados, que antes em Revanche eram terríveis. Tão terríveis que fariam a ConeCrewDiretoria ter receio em ouvir (confira um exemplo).

A música “Infinito” apresenta uma atmosfera positivista e bem amigável, soando até Pop (mas ainda sim podemos classificar como Rock, mas ambos no modo mais lúcido possível). Não ao nível de “Esteja Aqui”, um Pop arroz de festa gritante e irritante, mas bem agradável de se ouvir. Os vocais de Lucas soam bons e o mesmo atinge notas elevadas, as guitarras trazem um riff interessante acompanhado por uma bateria típica de um Rock mais simplificado, porém perfeita para o que música queria trazer e, claro, os bons timbres de Mário dão um ar mais encantado a faixa. Mas a falta de ao menos um solinho de guitarra (algo que faltou no último EP) deixou a desejar. O baixo, gravado por Lucas, incrivelmente soa interessante e até marcante. Você consegue senti-lo em determinados momentos da canção, mas nada comparado ao que Tavares fez em Cemitério das Boas Intenções, que colocou seu baixo no talo. Musicalmente, “Infinito” é uma boa música, com boas escolhas nos timbres e tem tudo para tocar na MTV, MixTV e em algumas rádios e programas televisivos.

O que decaí o nível de “Infinito” ao ponto de eu sentir um pequeno desgosto vem da letra. A letra a primeira vista não é ruim. Tem alguns momentos grudentos e marcantes e seu refrão é bom. Mas qual é o problema que me faria sentir esse pequeno desgosto? O quão vago a letra de “Infinito” é. Começar pelos três primeiros versos da canção:

“Eu nunca fui de lembrar
Nem tenho quadros em casa
Pois são a fonte do problema”

Então me diga senhor Lucas Silveira, homem que compôs a letra dessa música, o que você nunca foi de lembrar e porque ter quadros em casa são a fonte do problema? A música mal começou e eu já estou confuso! Bom, talvez na próxima estrofe ele explique algo. Vamos ver:

“A vida nem sempre é
Do jeito que eu esperava
Eu já nem sei se vale à pena”

Você não explicou nada. Ainda continua muito vago e sem sentido. O que que você não sabe se vale à pena? Viver? Matar? Comer? Cheirar cocaína a meia-noite na casa do Tavares? Expresse-se melhor, homem! Próxima estrofe. Espero que as coisas melhorem:

“Mas se eu pintar um horizonte infinito
E caminhar, do jeito que eu acredito
Eu vou chegar em um lugar só meu”

Como assim “Eu vou chegar em um lugar só meu”? Você vai morar embaixo da ponte? Roubar a casa de alguém? Se juntar ao MST? Sabe… um pouco de detalhe as vezes bem colocado muda muita coisa, sabia? Espero que o refrão ajude em algo e não seja aqueles feitos somente para grudarem:

“Lá pode ter um novo amor pra eu viver
Quem sabe uma nova dor pra eu sentir
A droga certa pra fazer te esquecer
Vai apagar a tua marca de mim”

O que se dá para perceber é que Lucas quer viver em um outro lugar que não seja o planeta Terra. Ele quer viver um novo amor, quer sentir algo novo, quer experimentar novos desejos e conhecer nosso grande universo. Tem uma maneira muito mais rápida de conseguir isso, meu caro músico, e não precisa jogar um balão na atmosfera para isso, gastando uma fortuna. Basta ter um console de última geração e jogar Mass Effect. Você conhecerá o universo e novas formas de vida de uma maneira bem mais rápida e poderá encontrar um novo amor, como um relacionamento gay ou com uma alienígena muito atraente. Se quiser sentir uma nova dor, o jogo te dá a grande experiência da morte. Ou se quiser mudar de sexo, o jogo te deixa jogar pelo time feminino, podendo optar desde o lesbianismo até o alienígenas nazistas (ok, nessa parte dos alienígenas nazistas eu inventei). Sem contar que temos uma excelente história nessa saga de três jogos. É muito mais rápido, prático e barato!

Incorporando um tom mais sério agora, o refrão da música é a melhor parte da canção e isso acontece graças a voz de Lucas, na qual contém muita emoção, algo que muitos vocalistas extremamente talentosos sonham em por essa emoção. E de certa forma explica algumas coisas na qual a letra iniciou, entretanto continua vago. Quem você quer esquecer, Lucas? Sua ex-namorada? Rick Bonadio? O Tavares? Eu não sei se essa é uma música sobre esperança em geral ou uma pessoa que teve azar no amor e que quer seguir em frente. Vindo da Fresno, é mais provável a segunda opção. O restante da letra não é necessário mencionar. Não porque são estrofes ruins ou não consigo fazer piadas sobres. Apenas segue aquilo que a letra deveria ser: o infinito, o espaço, o desconhecido, o sonho, entre outras coisas. Quem sabe a Fresno pensasse de outra forma, tentando lançar uma “Born To Run” ou uma “Come On Eileen”, mudando a letra um pouco e torna-se algo mais sério, adulto e foca-se na nossa humanidade e na esperança e não no que não está ao nosso alcance, teríamos uma música no mínimo excelente? Com essa conclusão, eu tenho certeza que essa música é sobre a esperança de ter um amor alienígena no espaço.

“Infinito” é uma boa canção para a rádio e se tiver forças o suficiente pode se tornar um hit nacional, levando a banda novamente ao status que um dia esteve (mas não acredito muito nisso). Apesar de algumas ideias legais, a letra é muito vazia nos detalhes, o que poderia melhorar a faixa, sem falar que um solinho de guitarra deixaria tudo mais marcante e potente para esse lead single. E outro problema da canção é que ela é do tipo que cresce com o tempo que você escuta. Talvez na terceira ou quarta vez você já pode definir bem se gostou dela e se ela te marcou ou não, o que pode afetar na hora de se tornar um hit nacional da maneira como “Uma Música” foi (se eu me recordo bem). Mas mesmo assim é uma faixa interessante e nos deixa curioso para o que virá no novo disco da banda, chamado “Infinito”, que está para ser lançado em Setembro. Veremos o quão forte é esse novo álbum da banda.