Torres – Torres (2013)

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Origem: Estados Unidos
Genêros: Indie Rock, Dream Pop, Folk Rock
Gravadora:
 Independente

Cá estamos, após um belo ano para a música, tudo começa novamente. O ciclo tem seu recomeço, nada para e 2013 promete. Estou um tanto atrasado pois estava enrolado com a lista de melhores discos de 2012 que acabei perdendo duas vezes graças a problemas com meu computador, e logo após isso, alguns problemas pessoais tiraram quase todo o tempo que eu tinha pra escrever. Sem mais delongas, vamos direto ao que interessa: Minha opinião sobre este belo trabalho, primeiro registro que ouvi neste 2013

Torres é uma garota de 22 anos vinda de Nashville, Tennessee. Na verdade, ela se chama Mackenzie Scott e seu projeto começou a ganhar asas recentemente. Não há muito a se dizer por trás desse debut auto-intitulado, senão que, como de praxe, um primeiro disco tem a vantagem de não carregar expectativas, podendo cativar fãs com maior facilidade. Em contrapartida, é quase sempre o primeiro disco que caracteriza sua fanbase ou o caminho que sua carreira vai seguir. Mackenzie não parece estar se importando muito com tudo isso, quer dizer, não a ponto de deixar que todo esse bolo de fatos e detalhes descaracterize a sua arte. Ao menos visivelmente, não.

O que chama a atenção nesse disco é a voz de Scott. Suas linhas vocais são marcantes por si só, sem necessariamente possuir um diferencial. Ela não soa diferente e nem pode ser considerada uma ótima cantora, mas sua voz – meio fraca, meio trêmula (?) – é um dos principais charmes deste trabalho. Do outro lado, fazendo isso funcionar corretamente, temos as letras. Cobertas de metáforas e comparações, são quase retratos, talvez pelo fato de que são escritas – a maioria delas – em  primeira pessoa. É como se, ao prestar atenção, você mentalizasse uma pequena história em sua cabeça, mas sem saber exatamente o que aquilo significa, embora seja algo “concreto”. Uma aura pesada contorna tudo isso, criando um ambiente melancólico que começa a ser construído em “Mother Earth, Father God” e tem seu final em “Waterfall”

Os arranjos aqui são demasiadamente simples, isso quando as músicas não são acompanhadas somente pela guitarra. Isso não faz desse disco pior, uma vez que eles se encaixam perfeitamente no clima do mesmo. Torres construiu isso minuciosamente e o resultado agradou, mostrou o que faz um disco não ser uma simples compilação. Isso se baseia saber como encaixar cada faixa em seu lugar e saber qual é seu objetivo: Fazer tudo na mesma linha ou extrapolar os limites de gênero, padrões, formatos e etc. Embora o primeiro seja muito mais fácil que o segundo, é algo que está em falta atualmente. Isso é, se tratando de discos com  bons resultados finais, isso está em falta. Essa combinação monta uma atmosfera muito agradável, sobrepondo as letras  com as melodias suaves e lentas. Isso se nota na sequência de faixas 3-8; as mais densas e que são capazes de despertar o gosto do ouvinte pelo full-lenght. De um ponto de vista sensorial, é como se você estivesse sendo hipnotizado e se transportasse para trechos de filmes em lugares imaginários que fossem capazes de ilustrar as belas e  – de certa forma – tristes canções presentes aqui. O uso eventual de eletrônicos e do baixo, principalmente em “Chains”, música de número 6, fazem a diferença e são responsáveis pela manutenção da obra ao longo de seus cinquenta e tantos minutos.

Esse disco realmente me pegou de jeito e se tivesse sido lançado ano passado, estaria figurando entre os melhores do ano. Sua qualidade é incomparável e embora não possua um diferencial para ser considerado clássico, não possui grandes problemas. Ao menos eu, não notei nenhum ponto negativo nesse disco ao longo das 7 audições até agora. Mackenzie não saiu da zona de conforto, poderia ter arriscado mais, mesmo assim cumpre de maneira espetacular seu papel para um primeiro disco. Quem sabe um dia ainda possamos dizer: Joni Mitchell – Kate Bush – PJ Harvey – Cat Power – Feist – Torres. Veremos.

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Opeth – Heritage (2011)

Origem: Suécia
Gêneros: Rock Progressivo, Jazz Fusion, Folk Rock, Metal Progressivo
Gravadora: Roadrunner

Heritage é décimo disco de estúdio do Opeth, banda sueca que tinha uma tendência a fazer um som extremo, com guturais poderosos e uma sonoridade macabra. Entretanto, como aconteceu em Damnation, ocorre aqui. O Opeth deixa seu lado extremo e mostra suas influências que até outrora não eram notadas, um lado incrivelmente versátil e cheio de melodias e ideias interessantes. A banda composta por Mikael Åkerfeldt (guitarra, mellotron, grand piano, vocais e efeitos sonoros), Fredrik Åkesson (guitarra rítmica), Per Wiberg (teclado, pianos, órgão e mellotron), Martín Mendez (baixo, contrabaixo) e Martin Axenrot (bateria e percussão) fazem um trabalho belo e eclético, saindo um disco muito bom. O som setentista modelado para o presente foi bem criado, não há como negar. Mas, como nem tudo são flores, infelizmente, o disco tem seus pontos baixos.

O disco começa com a faixa-título. Uma bela música sendo composta apenas por um piano. A faixa dura dois minutos, o suficiente para gostarmos dela e para não enjoarmos dela. Além da faixa-título, temos “Marrow Of The Earth” como faixa instrumental, mas que encerra o álbum, composto por dez faixas. Um encerramento bonito, como o início do disco, mas as canções não são nada memoráveis, porém fazem bem seu papel. A canção que vem após “Heritage” é a single “The Devil’s Orchard”. Uma poderosa canção, mostrando que o grupo não precisa de seu extremo e de seus guturais para surpreender com boa música. Desde quebradas rítmicas de bateria até riffs sensacionais, “The Devil’s Orchard” é uma grata canção aos nossos ouvidos. Destaque para o refrão, que eu considero não apenas bom, mas também forte. Aliás, quem não consideraria um refrão forte com a frase “God is dead”? Acho difícil…

Alguns problemas do disco vem na faixa “I Feel The Dark”, com um início bem no estilo folclórico espanhol, a faixa vai ganhando corpo, até que a música começa a demonstrar que vai se encerrar, e repentinamente (e brutamente), “I Feel The Dark” nos mostra um som vindo de um órgão tenebroso, inesperado, e a banda entra junto no que o órgão gerou. É imprevisível? Sim. Mas é uma imprevisibilidade que não encaixou no que estava acontecendo, foi uma ideia solta onde não precisava. E isso acontece em “Nepenthe” e em suas jams e solos guitarrísticos e em “Famine”, com sua introdução tribal, até vir um piano, e do nada vir riffs de guitarra. É estranho. Não tem nexo algum algumas ideias, apesar de serem criativas, só que foram colocadas no lugar errado.

Para aqueles que querem um peso a mais vindo da banda, o mais próximo disso é encontrado nas faixas “Slither”, um tributo a Ronnie James Dio (ex-Rainbow e Black Sabbath) e em “Lines In My Hand”, faixa que originou a temática de Heritage. Ambas passam uma energia muito positiva, chegando a ser até regozijante. “Folklore”, canção que vem antes de “Marrow Of The Earth” é uma das melhores (senão a melhor) músicas feitas para esse disco. Ela em seus mais de oito minutos tem consistência que algumas outras canções precisavam e deixa aquele ar de que o que foi ouvido valeu a pena, e quando entra “Marrow Of The Earth”, soa como um acalmante, e funciona perfeitamente. E não há de se esquecer de “Häxprocess”, com um clima tenso, porém lindo, é uma música que vale a pena ouvir com atenção.

Sem sombras de duvida, Heritage é um grande disco, com vários momentos interessantes e bem elaborados. Mikael fez um ótimo trabalho produzindo o disco, trazendo suas ideias e influências de uma maneira em que a execução das canções seriam as vencedoras. Entretanto, as repentinas mudanças das canções, apesar de imprevisíveis, as vezes não fazem sentido algum. Repare em “I Feel The Dark”, “Nepenthe” e em “Famine”, por exemplo. Se são bacanas? Claro que são. Mas soa estranho e parece serem outras faixas do que uma única, principalmente “Famine”. É um bom disco, mas alguns erros aconteceram. No próximo disco, quem sabe a banda faz um trabalho ainda melhor? Recomendado a aqueles que querem um disco com um pouco de tudo e até os próprios fãs do lado pesado da banda. Esse disco irá te satisfazer por um longo período de tempo.

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Jeff Buckley – Grace (1994)

Origem: Estados Unidos
Gêneros: Rock Alternativo, Folk Rock
Gravadora: Columbia

Jeff Buckley é outro talento que infelizmente partiu cedo. Em seu único disco de estúdio oficial e completo, Grace, temos uns dos melhores discos já lançados e que Jeff não pode ver o sucesso que fez a partir de 2003. Ele morreu em 1997 afogado no rio Wolf, aos 30 anos de idade. Uma das mais promissoras revelações de sua época, com um estilo único, fez um lançamento memorável e que só após sua morte ele acabou recebendo seus devidos e merecidos créditos. Uma pena. Grace possui 10 faixas e todas as faixas são excelentes. E não, eu não estou exagerando nenhum pouco sobre isso.

A faixa de abertura, “Mojo Pin”, é um começo diferente do que as pessoas esperam. Se você espera algo direto, um Rock rápido e uma voz berrante, este disco não tem muito disso não. A introdução da faixa é suave e Jeff começa a sussurrando, como em boa parte do disco ele faz. A canção apresenta muitos nuances e algumas progressões bem pesadas. A faixa-título, baseada na música instrumental “Rise Up to Be”, é uma das canções mais animadas e é aqui que notamos os dotes vocais de Jeff. Que voz ele tinha, e principalmente, o alcance das notas, que me fez lembrar de Daniel Gildenlöw do Pain Of Salvation (em outras palavras, sinto a influência de Jeff na interpretação de Daniel). Outro destaque também são as baladas do disco. “Lilac Wine”, “Hallelujah” e “Corpus Christi Carol” são mágicas graças a uma magnífica interpretação de Jeff, e você nem percebe que elas são covers. E claro, é essencial destacar “Hallelujah”, uma das canções mais belas já feitas e digna de ser considerada uma das melhores, devido a emoção que Jeff passa.

“Last Goodbye” e “Lover, You Should’ve Come Over” são canções com arranjos belíssimos e que não te deixam para baixo, muito pelo contrário. As tensas “So Real” e a faixa de encerramento, “Dream Brother”, são músicas incríveis e te puxam para dentro e te hipnotizam, principalmente a riquíssima em nuances e belas passagens “Dream Brother”, terminando muito bem o álbum. “So Real” tem uma evolução instrumental poderosa e um agudo muito interessante de Sr. Buckley, e mesmo com um doce “I love you” não diminui a densidade da faixa. E antes de chegarmos ao fim do disco (que no caso seria “Dream Brother”), temos “Eternal Life”, uma faixa totalmente diferente do restante do conteúdo de Grace, mas que encaixa muito bem e é aquilo que disse que esse disco não tem, uma canção rápida, pesada e direta, tendo uma forte influência de Led Zeppelin na interpretação e na música de Jeff, não só nessa faixa, mas no disco inteiro. Destaque para o baixo em “Eternal Life” e “Dream Brother”, que como costumo falar, é “cavalo”.

Grace apesar de ser a única marca registrada de Sr. Jeff Buckley, é um disco mágico e não irá decepcionar aqueles que buscam ouvir música com extrema qualidade. Uma bela voz, uma interpretação magnífica e uma ótima banda de apoio mostram um disco versátil, único e que merece muitas boas audições que serão muito, mas muito recompensadores. Que tal deixar de ser preguiçoso e dar uma chance a este disco? Recomendado a todos que querem ouvir algo diferenciado porém de altíssimo nível.

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Ani DiFranco – ¿Which Side Are You On? (2012)

Origem: Estados Unidos
Gêneros: Folk Rock, Indie Rock
Gravadora: Righteous Babe

Em seu décimo sétimo disco de estúdio, a guitarrista, cantora, compositora e vencedora de um Grammy, Ani DiFranco, ícone feminino, lança em Janeiro ¿Which Side Are You On?, disco no qual tem uma duração aproximada de 53 minutos, contendo 12 faixas, é um exemplo perfeito de como as vezes um gênero musical pode ser interessante, viajantes e divertido e outrora inanimantes e desinteressantes em um mesmo álbum.

Disco calmo e suave, Ani DiFranco nos dá um trabalho de estúdio que seria recomendado a todos que gostam de ouvir uma música graciosa e relaxante em determinados momentos de sua vida. O Folk desta moça, apesar de ser o que já descrevi aqui em cima, também é um trabalho com alguns sons experimentais (e bem feitos, diga-se de passagem), sendo alguns não muito notáveis como na primeira (e de certa forma chata e um mau começo) faixa, “Life Boat”, já outros bem perceptíveis. Faixas como “Unworry”, “Prosmicuity”, a curta “If yr Not”, a parcialmente tensa “Amendment”, “J”, que parece um Reggae, e a faixa título é que fazem o trabalho de Ani DiFranco acima de média, sendo elas empolgantes mas não são pesadas ao ponto de estragar seu relaxamento, principalmente na faixa título, onde a mulher faz uma ótima interpretação. Outro destaque positivo é a diferenciação entre as faixas do álbum. Quando você escuta cada canção, você percebe que elas não são composições parecidas, são diferentes e elas todas encaixam na obra, o que é sensacional e coerente.

Claro, nem todas as faixas são espetaculares. Como já citada “Life Boat”, “Splinter” é estranha e lembra Mallu Magalhães, e todos nós sabemos o quão entediantes são as músicas da “menina do camelo”. “Albacore” tem ótimos momentos e outros tão sem graça que vale a pena pular para a próxima faixa. Apesar de ter um começo interessante, “Hearse” entra naquele marasmo cansativo de outras faixas que só da vontade de pular ela. “Mariachi”, junto com a faixa de encerramento, “Zoo”, são canções meramente esquecíveis e que não colaboram muito para a qualidade do álbum, principalmente “Zoo” por ser o final do disco e não ser nenhum pouco marcante o que na verdade deveria ser, pois todo fim de álbum na opinião de quem escreve deve ser importante e marcante, e não sobras de estúdio.

Chegando a uma conclusão, ¿Which Side Are You On? é um bom disco, relaxante, e alguns momentos divertidos, mas que por certas passagens sem muita criatividade que as vezes lembram o próprio Caetano Veloso no banheiro após comer a feijoada de Gilberto Gil que acabam abaixando o nível do disco. Ele é ótimo para você ir dormir ouvindo, com certeza sua insônia será curada pela doce voz de Ani DiFranco.