Anathema – Distant Satellites (2014)

Front

Origem: Inglaterra
Gênero: Rock Alternativo
Gravadora: Kscope

É sempre incomodante uma banda receber prestígio e respeito por fazer um som pasteurizado e sem tomar sequer pequenos riscos. Mas o que mais chama a atenção em Distant Satellites, o novo disco da banda britânica Anathema, é o fato do público alvo que mais elogiou o trabalho que a banda fez foi justamente o público do Rock Progressivo, um público que sempre demonstrou interessado na evolução das bandas dos quais gostam. Álbum após álbum, Anathema mudou de uma interessante – e de certa forma revolucionária – banda de Doom Metal para uma das mais aclamadas bandas de Rock Alternativo por esnobes do mundo musical, sejam próprios músicos, críticos ou fãs da banda.  Não que este grupo não tenha feito nenhum acerto durante seus 24 anos de existência. Na verdade, o grupo fez mais acertos do que erros. O maior defeito encontrado no décimo trabalho da banda é que o som está cada vez mais simplificado e empobrecido, ao mesmo tempo que fica mais sinfônico e bombástico, como se estivessem tentando esconder as próprias fraquezas.

Anathema possui canções mais longas do que uma banda de Rock Alternativo costuma produzir, mas o que é visto em Distant Satellites, falando em termos de execução e técnica, bandas como Coldplay parecem estar no mesmo nível. Com exceção dos ótimos vocais e do solo de guitarra na faixa que carrega o nome da banda, nada soa espetacular e até mesmo arriscado. E quando a banda tenta soar arriscado, soa como figurinha repetida em um álbum que não pertence. Existe explicação para o que é feito em “You’re Not Alone”, uma faixa que, além de ser próxima a algo que a banda já fez em discos passados, soa como uma das experimentações perdidas dos primeiros discos do Linkin Park? E as duas faixas que encerram o disco, a faixa-título e “Take Shelter”? Por mais que elementos de bateria e de Música Eletrônica não sejam novidade no som da banda, soam totalmente fora de contexto em Distant Satellites e por si só, como canções, são fracas e sem riqueza que a banda um dia demonstrou. E quando a tentativa de fazer um mais orgânico com a bateria é feito, soa sintético e sem sabor nenhum. Repare na faixa “The Lost Song, Part 3” e veja o quão fraco é a produção deste essencial instrumento.

E o que dizer das letras? O ponto mais fraco deste disco, definitivamente. Elas são simplistas, envolvendo temas como “eu perdi você”, “eu achei você”, “eu achei que perdi você”, “eu me perdi em você” e sentimentos de amor com uma pessoa que você um dia perdeu. São temas repetitivos despejados pelo disco de forma entediante. Ouvindo os vocais dos irmãos Cavanagh e de Lee Douglas, parece que montanhas então sendo movimentadas através de um rio de emoções caindo em uma cachoeira sem fim. Lendo, parece que um estudante do ensino médio andou assistindo muito romance adolescente e tentou escrever um álbum conceitual/temático, mas não havia muita criatividade e pensou que em jogos de palavras o fariam mais inteligente e sensível.

Distant Satellites pode ser um disco adorado, aclamado e soar excitante para um ouvinte de música. Não basta mais que uma boa aprofundada e um senso crítico comum para perceber que é um som não vai oferecer nada novo, seja para quem ouve ou para quem faz a música. Anathema já fez trabalhos mais ricos que este, como visto em Weather Systems de 2012, que valem muito mais a pena do que é visto em 2014. Anathema está cada vez tornando-se mais repetitivo, chato e careta, ao invés de dar um desafio ao seu ouvinte, que merece muito mais do que é apresentado aqui.

Sem título-8

Anúncios

3 Recomendações: Metal Extremo (2013)

Nem sempre é possível falar sobre todos os ótimos e péssimos álbuns lançados em um único ano. Por mais cuidado que um crítico tenha, ele pode deixar de opinar sobre um álbum de grande (ou péssima) qualidade por falta de tempo ou por não conseguir transparecer sua opinião de forma que considere-a justa. A ideia do quadro 3 Recomendações é falar sobre discos que você deve procurar ouvir de um específico gênero ou ano de lançamento e que são considerados pelo escritor do artigo como candidatos a uma possível lista de “melhores do ano”. Estarão anexados links para audição das canções que você devam despertar o seu interesse em tal trabalho. O primeiro texto deste novo quadro será sobre três discos de Metal Extremo, que neste ano teve bastante material interessante.

The Dillinger Escape Plan – One of Us Is the Killer

One-of-US-is-the-Killer-Album-CoverO quinto álbum de estúdio do grupo californiano é intenso, rápido e pesado, porém é extremamente complexo, com momentos onde a banda parece uma máquina de destruição, sem ter pena do ouvinte, como é possível de se ouvir na faixa de abertura, “Prancer”. Mas estamos falando de uma banda extremamente versátil, que é capaz de compor canções como a faixa-título, que é possui momentos tanto quanto calmos encontrados em um grupo de Jazz, como momentos encontrados em bandas de Metal radiofônico. A execução deste álbum de 40 minutos é ótima e os vocais de Greg Puciato são, no mínimo, excelentes, sejam eles gritados e berrados ou cantados.


Shining – One One One

Shining-One-One-One

One One One é outro álbum intenso, rápido e pesado. Entretanto, ao invés de algumas canções com vocais limpos e de fácil assimilação como The Dillinger Escape Plan fez, este grupo norueguês simplesmente não perdoa. Em menos de 36 minutos de duração, esta banda de Jazz Metal Experimental usa o sax como se fosse uma guitarra em diversas faixas deste álbum, como na canção de abertura, “I Won’t Forget”. O destaque do álbum fica com a poderosa “Blackjazz Rebels”, que certamente irá deixar qualquer ser humano espantando com a energia demonstrada. Mas, apesar dos experimentos, pesos e vocais rasgados/gritados, é um álbum grudento. Seus refrões são daqueles que custam a sair de sua cabeça, gostando das faixas encontradas aqui ou não.


Kongh – Sole Creation

Kongh-Sole-Creation

De todos os álbum aqui citados, este é o mais longo, com 45 minutos de duração, possuindo apenas quatro longas canções, com quase todas durando acima da marca dos 10 minutos. É lento e atmosférico, com momentos progressivos e, às vezes, até depressivos, como a faixa “Skymning”, que possui bastante força emocional para encerrar o álbum. Para alguns isso pode não ser interessante, porém os elementos de Doom Metal presente neste álbum são bem executados, os vocais são bons e as composições são ótimas, como é visto na faixa-título. Se você tem interesse por algo não tão veloz, mas sim por um som com influência de Black Sabbath, apresentando uma faceta moderna, esta banda sueca pode te surpreender.

 

Avenged Sevenfold – Hail to the King (2013)

avenged-sevenfold-hail-to-the-king

Origem: Estados Unidos
Gêneros: Heavy Metal, Hard Rock
Gravadora: Warner Bros. Records

Hail to the King é o sexto disco desta banda da Califórnia, o primeiro sem seu baterista original, o já falecido e bom músico The Rev, e o primeiro com Arin Ilejay, ex-Confide. Após o interessante e depressivo Nightmare, de 2010, Avenged Sevenfold sentiu que precisava surpreender seus fãs com uma nova direção musical. Ao invés de repetir as fórmulas de seus discos anteriores pós-Waking the Fallen, o grupo decidiu lançar seu “álbum negro”. Os talentosos músicos decidiram por um álbum mais comercial, para conquistar os fãs do clássico Heavy Metal, que os odeiam e não suportam a música que o quinteto faz. Já é possível saber como Hail to the King será baseando-se apenas esta pequena descrição.

O álbum começa com “Shepherd of Fire” e na introdução desta canção temos sons de fogo em brasa, mostrando a ideia de energia que a faixa mostraria. Para o encerramento temos “Acid Rain”, a faixa termina com sons de chuva, resumindo de forma simplória o que foi a faixa. São ideias interessantes para iniciar e encerrar um disco, porém o que separa essas ideias são 53 minutos divididos em 10 músicas com pouca qualidade e, principalmente, sem criatividade e personalidade. Com exceção de “Planets”, você pode pegar qualquer música de Hail to the King e apontar para a(s) fonte(s) de sua “influência”. Por exemplo, “Doing Time” é uma mistura irritante de Guns N’ Roses e Velvet Revolver. Já “Coming Home” é um visível “tributo” ao clássico do Heavy Metal “Number of the Beast” do Iron Maiden. E, sem esquecer do óbvio, pelo menos três faixas foram chupadas do Metallica. “Shepherd of Fire” é como “Enter Sandman” com alguns toques de “Cowboys from Hell” do Pantera, “Crimson Day” é o equivalente a “Nothing Else Matters” e, o maior plágio deste disco, “This Means War” é praticamente um cover de “Sad But True”.

Se você, que odeia o Metallica por sua transformação ao mainstream, mas ama o Megadeth, porquê manteve o Thrash Metal com boa qualidade, repare na vísivel “influência” em “Heretic”, que mais parece “Symphony of Destruction”. Em relação a faixa título, é uma fraquíssima canção que qualquer banda genérica metida a Manowar poderia compor. E a já citada “Acid Rain” soa como se fosse composta por, pasmem, Muse! E não se pode esquecer de “Requiem”, que foi composta quando a banda ouvia o novo disco do Ghost e outras diversas bandas de Power Metal. E para as letras que a banda possuía – você considere elas emo ou não – “evoluíram” para temas de fantasia, o que torna mais difícil de levar alguém a sério quando diz que “olhou nos olhos do diabo”. Onde está a personalidade e criatividade deste grupo californiano? Avenged Sevenfold mudou, mas ao invés de seguir para frente ou seguir para direita ou esquerda, resolveram voltar seis passos para trás. Toda a complexidade e emoções que a banda tentava passar em suas composições se foram. Tudo que sobrou foram os irritantes vocais de M. Shadows. É preciso diferenciar “influência” de “plágio”.

Um exemplo vivo de artista que recebe bastante influência do passado é Steven Wilson. Em seu novo disco, o excelente The Raven that Refused to Sing (And Other Stories), é visível influências das grandes bandas clássicas do Rock Progressivo e Jazz Fusion, como Jethro Tull, Mahavishnu Orchestra e, principalmente, King Crimson. O que acontece é que Wilson coloca sua personalidade nas suas composições. Por mais visível que seja as suas influências, o ouvinte sabe que está ouvindo um artista disposto a deixar a sua marca no que está executando e, no caso de Wilson, produzindo. Em seu novo álbum, você não consegue apontar para uma faixa que o disco tenha chupado de um artista, somente as bandas que levaram a compor as canções. Entretanto, em Hail to the King, você pode dizer que “This Means War” é na verdade “Sad But Two”.

Em resumo, Hail to the King é um disco, em sua essência, monótomo, fraco, forçado, cansativo e nauseante. O novo baterista do grupo, Arin Ilejay, não tem culpa de estar tocando músicas tão aquém da capacidade de qualquer baterista de Metal moderno, que estão no nível de Lars Ulrich. A necessidade que o grupo demonstrou em conquistar os fãs tradicionais do grupo não vai funcionar, pelo simples fato de que esse disco é um falso tributo aos amantes do Heavy Metal. Se Hail to the King for um disco que lhe interesse, então você está assumindo que não tem senso crítico ou simplesmente quer ouvir tudo o que já foi feito com algumas alterações e vocais piorados.

Sem título-1

Kanye West – Yeezus (2013)

yeezus

Origem: Estados Unidos
Gêneros: Hip-Hop Experimental, Hip-Hop Industrial
Gravadoras: Roc-A-Fella, Def Jam

Com o lançamento do aclamado My Beautiful Dark Twisted Fantasy, lançado em Novembro de 2010, o rapper Kanye West vem cada vez mais se destacando na mídia, seja positivamente com o próprio lançado em 2010,  ou seja pelas suas aparições na mídia e as palavras que usava em entrevistas e em shows, considerando-se um “Deus” da atualidade. Se compararmos com outro rapper americano, como Lil Wayne, certamente Kanye West é “Deus”. Kanye West, junto com Jay-Z, estão em um patamar que nenhum outro rapper está próximo. Kanye por demonstrar uma incrível progressão como produtor e artista, e Jay-Z por ser um rapper com excelente situação financeira e por estar na mídia por mais de 10 anos sem ter tido sua imagem destruída.

Como produtor, Kanye consegue construir ótimas batidas e usar samples de forma inteligente e criativa, mas como letrista, Kanye decaiu de nível após o lançamento de seu terceiro álbum, Graduation, de 2007. Em sua fase Pop, Kanye explorava uma maior diversidade de temas, e nem todos os temas selecionados eram pessoais, falando sobre religião, família, materialismo e, principalmente, educação. Ouvindo os discos posteriores a Graduation, percebemos que a variedade de temas que Kanye utilizava diminuiu. Já em seu quarto álbum, 808s & Heartbreak, de 2008, Kanye focou-se em temas extremamente pessoais, fazendo músicas sobre amor, solidão e “coração partido” em um álbum com uso extensivo de auto-tune, uma ferramenta bastante usada por Kanye em 2008 e diante, algo que se mantém aqui em Yeezus.

Yeezus é um disco experimental, podendo lembrar grupos como Death Grips em alguns momentos, entretanto Kanye demonstra personalidade própria em seu sexto álbum de estúdio solo. Na canção que abre o álbum, “On Sight”, percebemos o minimalismo que permanece em boa parte do álbum e todo seu potencial barulhento, com forte intensidade em sua batida e um ótimo uso de sample na metade de “On Sight”. Já em faixas como “I Am A God” e “Hold My Liquor”, possui momentos onde Kanye poderia usar mais peso e intensidade, demonstrada em “On Sight” e, principalmente, “I’m In It”, onde possui uma mudança de ritmo que fez a diferença para a canção se tornar uma das melhores do álbum. “Black Skinhead” e “New Slaves” são canções pesadas em seu conteúdo lírico, envolvendo temas sobre racismo envolvidas pelo minimalismo presente no álbum, principalmente “New Slaves”, onde, em questão de progressão e ritmo, somente para o fim que realmente temos algo que altera a estrutura da faixa.

Apesar de Yeezus (em sua boa parte) ser um álbum minimalista, não é em todas as músicas que isso se segue. Na faixa mais longa do disco, “Blood On The Leaves”, é bastante movimentada com um Kanye West bem depressivo e emocional no auto-tune, uma ferramenta muito bem usada no decorrer de Yeezus. Até mesmo alguém como o jovem rapper Chief Keef soa tolerável com esta ferramenta na faixa “Hold My Liquor”, onde o mesmo canta o refrão de uma forma onde o homem de gangue que não quer demonstrar sentimentos finalmente demonstra sentimentos que estava escondendo. Algo notável neste álbum é a tonalidade triste presentes e, de certa forma bonitas, neste disco. Se ignoradas letras em determinados momentos, Yeezus possui momentos que faria Lou Reed chorar (clique aqui e confira [em Inglês] a opinião de Lou Reed sobre Yeezus).

Letras em Yeezus é, em grande parte, o ponto fraco. “Send It Up” tem uma batida cativante, porém com uma letra péssima. E a versatilidade de temas, comparadas com seus discos da era Pop, continuam muito menores. E em alguns refrões, como em “Guilt Trip” e “I Am A God”, são totalmente inefetivos e cansativos. Entretanto, o fim do álbum com “Bound 2” vale a pena pelos samples usados e como foram usados, formando uma música deliciosa de ouvir, com uma ótima participação especial Charlie Wilson. Outro fato notável são as participações especiais. Comparada com My Beautiful Dark Twisted Fantasy, Yeezus possui menos participações especiais, mas as que estão presentes são competentes, como Justin Vernon em “I Am A God” e “Hold My Liquor”, Frank Ocean em “New Slaves” e Kid Cudi em “Guilt Trip”.

Yeezus apresenta seus problemas em seus 40 minutos de duração, porém é um disco que deve ser escutado de início a fim por diversas vezes. Kanye West superou em seu sexto álbum como produtor e artista, trazendo uma evolução inesperada. As músicas compostas, apesar de possuírem pouca qualidade em letras, contém batidas contagiantes, uso inacreditável de auto-tune, samples bem colocados e distribuídos, além de boas e efetivas participações especias. Yeezus é um álbum que demonstra que o comodismo é o maior inimigo do ser humano e que nunca devemos chegar a este ponto.

Sem título-17

Riverside – Shrine Of New Generation Slaves (2013)

Press_Cover_01

Origem: Polônia
Gênero: Rock Progressivo
Gravadoras: Mystic Production, InsideOut Music

O quinto álbum desta banda polonesa é aquele álbum que quanto mais você ouvir, melhor ele fica. Lançado no final de Janeiro, o belo Shrine Of New Generation Slaves perde os elementos de Metal Progressivo que a banda possuía, como músicas mais pesadas e o vocais rasgados de Mariusz Duda, que era audível em discos como Second Life Syndrome, e explora mais em experimentações em ambientações e em efeitos nos vocais do já citado vocalista. Esta é uma banda com composições interessantes e inteligentes, mostrando uma profundidade onde poderia ser mais conhecida e respeitada na indústria da música.

Riverside, diferente de boa parte dos grupos que se classificam como Metal Progressivo ou Rock Progressivo, não tem foco nas “épicas batalhas entre teclado e guitarra”, e sim o grupo se foca nas composições, nas melodias e no quer passar em sua música. Cada elemento, cada instrumentação e cada ideia que o grupo coloca em Shrine Of New Generation Slaves soa certo, soa que pertence aquela faixa. Até mesmo o ótimo solo de teclado, executado por Michał Łapaj, na faixa “Celebrity Touch” – uma das mais pesadas e animadas do disco – parece natural com o som que a faixa apresenta em seu decorrer.

Apesar de “Celebrity Touch” ser uma faixa com boa parte animada e pesada, assim como a faixa de abertura, “New Generation Slave” e “Feel Like Falling”, o disco não segue esta fórmula de canções agitadas e energéticas. Muitas faixas deste disco ou são belas composições ou são mais atmosféricas. Quando você ouvir canções como “The Depth Of Self-Delusion”, em “Deprived (Irretrievably Lost Imagination)” e na longa e progressiva “Escalator Shrine”, perceberá que é nestes momentos que Riverside mostra seu ponto forte em seu quinto álbum. A banda não precisa fazer canções pesadas ou usar vocais rasgados para criar boas canções de Rock/Metal Progressivo moderno. Algo que ajuda bastante na audição deste disco são as ótimas produções e mixagens. Nenhum instrumento se sobressai, todos tem seu devido destaque e as ideias que a banda transmite no decorrer das 9 faixas são executadas de forma excelente, apesar de alguns timbres de teclado escolhidos em determinadas faixas como “Deprived (Irretrievably Lost Imagination)” e “Feel Like Falling” não serem os melhores timbres possíveis.

Os vocais de Mariusz Duda, apesar de encaixarem no que na sonoridade da banda e serem bonitos em alguns momentos, é inegável que poderiam envolver mais emoções. É na voz de Mariusz que é possível sentir falta dos vocais rasgados que ele usava nos discos antigos da banda. Não por serem melhores, mas por mostrar outras emoções, como raiva ou angústia. Entretanto, Mariusz mostra ser um grande letrista. Suas letras são impecáveis em diversos momentos deste álbum, como em “Feel Like Falling”, “Celebrity Touch” e em “Escalator Shrine”. E o álbum termina com a curta balada acústica “Coda”, que contém partes da letra e da melodia de “Feel Like Falling”, porém, com alterações que deixam a faixa até mais bonita em seus arranjos.

Shrine Of New Generation Slaves é o disco que deixa Riverside em um patamar próximo ao do cultuado grupo do mesmo gênero, o Porcupine Tree (esta banda já apareceu diversas vezes aqui no Images & Words). O álbum tem seus problemas, mas seus pontos fortes tem uma visibilidade maior, mas o líder do grupo, o vocalista e também baixista Mariusz Duda, mostrou ser um ótimo letrista e os outros integrantes de sua banda mostraram que juntos tem uma ótima química. Shrine Of New Generation Slaves é um disco para se ouvir com calma e repetidas vezes. O maior número de audições mostrará o quão bom esta banda é e o quão bom este disco é.

Sem título-20

Clarice Falcão – Monomania (2013)

Clarice-Falcão-Monomania

Origem: Brasil
Gêneros: Indie Folk, Indie Pop
Gravadora: Independente

Se você acompanha o canal Porta dos fundos, você já deve conhecer a pernambucana Clarice Falcão, de 23 anos, cantora e compositora de músicas “malucas, porém fofas pela inocência imposta na interpretação”. Monomania é seu disco de estréia e de cara já pegamos um disco com uma arte feia, preguiçosa e sem inspiração. Não costumo criticar arte de disco, mas Monomania é um dos trabalhos mais feios que já vi como produto musical. Apesar do meu desgosto pela arte do álbum, o objetivo de uma análise crítica sobre um disco não é sobre sua arte, e sim sobre seu conteúdo: as músicas e as letras (caso o disco tenha letras, como é o caso deste disco). O que se pode falar, resumidamente, sobre a estréia de Clarice? Ruim e fraca.

Na parte instrumental das 14 faixas de Monomania (sendo a última uma versão em Inglês de “Fred Astaire”) não tem nada de ruim, mas também nada de bom. Não tem destaque positivo ou negativo nesta parte, pois é tudo certinho. Tudo. O destaque fica na voz de Clarice, que é aqui onde você vai gostar do trabalho dela ou não. Ela não canta mal, e até que possui uma voz bonita. O problema é o que ela canta, a personalidade que ela incorpora e a interpretação que ela usa ao decorrer do álbum que dura por volta de 34 minutos. Ela tenta soar doida, mas de uma forma boba, inocente, fofa. Clarice tenta soar tão fofa que soa repugnante.

Porém, o maior defeito deste disco são as letras. As letras são pavorosas. Clarice, às vezes, consegue escrever versos interessantes (são poucos) e dou crédito a ela por usar boas rimas e métricas em seus versos, entretanto, outros versos fazem sentido nenhum. Veja este verso da faixa “De Todos os Loucos do Mundo” e perceba a falta de sentido.

“Você esconde a mão, diz que é Napoleão”

O que isso quer dizer com isso? Você está chamando o cara que você gosta é gay? Está dizendo que o cara louco que você diz entre todos os outros loucos mundo foi este que você quis é gay? Ou essa pessoa é uma mulher? E pra piorar ainda mais a  situação do humano que a Clarice diz gostar e a minha confusão, Clarice complementa com o verso:

“Boa parte de mim, acredita que sim”

Depois dessa, é difícil não achar, pois a própria mulher acredita que você é gay. Então Clarice gosta de um homem gay? Fica a dúvida.

Mas a pior letra fica por conta de “A Gente Voltou”. É uma inocência tão burra e nojenta que ela põe na letra desta faixa que simplesmente não consigo levar a sério como compositora, ou levar na brincadeira como compositora. É estúpida a letra desta canção, parecendo que foi composta por uma menina com 13 anos tentando parecer poética. Até o humor que ela passa nas suas músicas parece ter sido feito por uma menina com 13 anos que pensa que é mais engraçada e inteligente que Zorra Total e A Praça é Nossa.

De todos os artistas da atualidade, gostar de Clarice Falcão não é um crime, se compararmos com outras porcarias nacionais que estão na mídia – como o ridículo Naldo -, porém, em Monomania, Clarice Falcão não demonstra conteúdo relevante em suas canções amorosas. Suas músicas não são bonitas ou inteligentes. Não são nem sinceras. É apenas uma tentativa de que consiga um público que goste de suas músicas fofas com uma poesia ginasial, e o alvo desse público vai deste o ouvinte de música pop ou aos fãs mais chatos de Los Hermanos. Se o som Indie Pop com pegada Folk – influenciado por grupos como She & Him – faz sua cabeça, vá firme, pois em Monomania vai ter muito para você ouvir. Entretanto, se você quer algo com um pouco mais de profundidade e até mesmo um tom maior de seriedade e sinceridade do que Clarice Falcão oferece, não é o trabalho recomendado para ouvir.

Sem título-8

Steven Wilson – The Raven That Refused To Sing (And Other Stories) (2013)

The-Raven-That-Refused-To-Sing-And-Other-Stories-cover

Origem: Inglaterra
Gêneros: Rock Progressivo, Jazz Fusion
Gravadora: Kscope

Se você acompanha este blog a certo tempo, provavelmente já ouviu falar de Steven Wilson. Steven Wilson é cérebro por trás do grupo Porcupine Tree e fez interessantes parcerias, como Blackfield com o israelita Aviv Geffen e o mais recente como Storm Corrosion com Mikael Åkerfeldt, o líder do grupo sueco de Death Metal, Opeth, além de outros trabalhos seja na música ambiente como Bass Communion, No-Man,  Incredible Expanding Mindfuck, como produtor de discos como o clássico moderno do Opeth, Blackwater Park, e também por remixar os catálogos de bandas do Rock Progressivo, como Jethro Tull e King Crimson. Wilson é tipo de homem que não para no serviço, podendo ser classificado da mesma forma que podemos classificar o baterista Mike Portnoy, ex-Dream Theater e atual Adrenaline Mob e Flying Colors: como workaholic, um trabalhador compulsivo.

Além de já ter trabalhado em discos bastante aclamados como produtor, Wilson já lançou grandes discos, seja pelo Porcupine Tree ou seja em carreira solo, onde em 2011 lançou um dos melhores discos daquele ano (senão o melhor), Grace for Drowning, onde Wilson misturava diversos elementos do Rock Progressivo e da música experimental, que continua expandindo as ideias que seu o disco de estréia de 2008, Insurgentes, entretanto deixando de forma coerente e algumas vezes lindíssimas, como na faixa “Deform To Form A Star”. Wilson lança seu terceiro disco solo, The Raven That Refused To Sing (And Other Stories), um disco temático onde cada uma das 6 canções deste álbum conta uma história sobre o sobrenatural (e sim, as letras são interessantes e/ou bonitas). Para auxiliar na produção e para cuidar da engenharia de som foi chamado Alan Parsons, o mesmo engenheiro de som de The Dark Side of the Moon do Pink Floyd, ou seja, qualidade não é vai faltar nesta questão.

Mas não basta ter um excelente engenheiro de som e um “gênio” da música, é necessário uma excelente banda de apoio, e Steven Wilson tem. Na bateria temos Marco Minnemann, um estupendo baterista que quase entrou para o Dream Theater (que provavelmente não entrou porque não combinava visualmente com a banda). No baixo temos Nick Beggs, onde já capaz de ser do quão bom é este senhor ouvindo as faixas “Luminol” (que abre de forma sensacional o disco) e “The Pin Drop”. O guitarrista Guthrie Govan despeja belíssimos solos durante o disco, assim como o saxofonista, flautista e claretinista Theo Travis. E os teclados Adam Holzman são completos de bom gosto e nível técnico elevado. Com este time, Wilson não terá problemas, pois como ele é um “gênio” da música, ele fará um trabalho espetacular, certo? Não. Tem problemas, mas isso não diminui a qualidade do time de Wilson, pois os problemas não estão na banda de apoio, mas no próprio Wilson.

Quando Steven Wilson canta, raramente ele muda seu tom melancólico e apático. Você pode ouvir ele cantar em algumas canções de forma muito melancólica e/ou muito apática, porém dificilmente saíra disso. Seu vocal, apesar do autor deste texto gostar, não transmite emoções necessárias nas músicas, limitando o que o ouvinte pode sentir ao ouvir. Por exemplo: se Wilson tivesse outro vocalista em seu lugar, quem sabe este outro vocalista não canta-se/interpreta-se melhor que ele? Wilson pode atingir as notas certas, mas não consegue passar emoções além de melancólico e apático, o que pode irritar se você procurar variedade nos vocais e que transmitam uma maior diversidade de emoções. Isto quer dizer que Wilson é um mal cantor? Não. Apenas que Wilson poderia arrumar outro vocalista em seu lugar.

O seu canto, que é limitado (seja na demonstração de emoções ou no alcance de notas altas), afeta na qualidade das canções? Isto depende. Wilson em “Drive Home” inicia cantando de uma forma tão pavorosa que talvez seja seu pior momento como cantor, mas na faixa de encerramento, “The Raven That Refused To Sing”, Wilson canta de ótima forma, encaixando no que a música pede. E tem poucas diferenças da forma que ele canta em “Drive Home” e “The Raven That Refused To Sing”. Pela maior parte do tempo, os mesmos vocais melancólicos e apáticos se dão bem na proposta sonora, pois foram feitos para a voz de Wilson, mas não quer dizer que são sempre bem executados. Uma maior variedade nessa área faria o álbum mais forte.

O forte deste disco esta na química da banda de apoio e na execução instrumental. Nas 3 faixas mais longas do disco, percebemos o talento destes músicos e quão dispostos eles estão para ultrapassar seus limites, seja na complexidade com cara de Jazz Fusion de “Luminol” e de “The Holy Drinker”, ou na triste, porém bela canção, “The Watchmaker”, onde tem um um final explosivo incrível. As três mais curtas mostram o lado mais acessível da banda, com exceção de “The Pin Drop”, que mantém de certa forma esta acessibilidade por ser a canção mais curta do álbum (5 minutos). “Drive Home” e “The Raven That Refused To Sing” são lindas baladas. “Drive Home” possui um delicioso solo de guitarra, sendo a faixa mais leve em questão de atmosfera, enquanto a faixa de encerramento é a melhor canção que Steven Wilson já compôs, por simplesmente ser a faixa mais emocional que ela já criou. É a faixa onde maior será a chance de cair lágrimas de seus olhos, contendo um clima muito depressivo, porém magnífico, terminando da forma que você imagina Steven Wilson: melancólica e apática (apesar de não ser assim em suas entrevistas).

Mas temos outro problema neste disco. Ele é pequeno, mas é bom falar sobre ele. Se compararmos com seus discos solos anteriores, percebemos que Wilson não está experimentando da mesma forma de antes, e agora parece que está fazendo tributos a suas bandas favoritas de Rock Progressivo – em especial King Crimson -, chegando a usar o mesmo mellotron utilizado em In The Court Of The Crimson King, de 1969. Wilson usou um teclado com 44 anos de existência em seu novo disco. Se ele continua bom? Continua. E por mais que o disco soe em alguns momentos como tributos aos clássicos progressivos, não diminui a qualidade das canções ou tira a personalidade que Wilson impõe em suas músicas.

The Raven That Refused To Sing (And Other Stories) é, até o momento, o melhor lançamento de 2013. Combinando seus elementos do Rock Progressivo com fortes influências de Jazz Fusion e muitas improvisações, Steven Wilson pode ter orgulho em dizer que não é somente um disco tributo aos seus artistas favoritos, mas um álbum que se fosse lançado na época que Rock Progressivo era popular, seria tão aclamado quanto Aqualung do Jethro Tull, ou Tarkus de Emerson, Lake & Palmer, ou Foxtrot do Genesis, ou Fragile do Yes. Este não é melhor disco de Steven Wilson, porém é o mais acessível e de fácil assimilação em seu catálogo solo. Este músico/produtor/compositor britânico é altamente recomendável.

Sem título-20